sexta-feira, 18 de março de 2011

Escreví a palavra flor...


Escrevi a palavra flôr no meu caderno de apontamentos. Não sei bem porquê. Aquela reunião chata que durava há mais de duas intermináveis horas estava a torturar-me como alfinetes de vodu. As palavras monocórdicas, enfadonhas e formatadas atingiam-me lancinantemente. Porque é que estas reuniões têm sempre uma “janela de oportunidade”, um “mercado para penetrar”, ou “um público para impactar”. Que se lixem os “stakholders” e os “accionistas”. Virei costas a tudo isto. Agarrei num voucher mental e fiz o meu check in dali para fora. A minha low-cost do pensamento levou-me para um campo impossível, onde flores de todas as cores e origens conviviam num arco-iris mágico de odores. Que bem se estava ali. Tudo parecia perfeito, harmonioso. Sou um homem na casa dos quarenta. Confesso que nunca tinha pensado muito em flores. Nem sei porque a palavra me surgiu naquela sala de reuniões escura, onde a luz do retroprojector fazia as vezes do Astro Rei. Agora era o verdadeiro Sol que sentia no meu rosto. Que agradável. Fechei os olhos por momentos e deixei-me acariciar por aquele calor tão reconfortante. Senti-me, também eu, uma flor a fazer a fotossíntese. Abri os olhos. Olhei em volta. Cada flor tinha agora um rosto. Nas rosas descobri a face ternurenta da minha avó, que com carinho cuidava o seu jardim e ornamentava, com aquele doce odor, as diferentes divisões lá de casa. Senti a sua mão no meu cabelo, a acariciar-me daquela forma que só as avós sabem. Desviei o meu olhar ligeiramente. Mesmo ao lado encontrei um bando de margaridas, onde revi a cara da Ana, a minha primeira namorada. Via-a de totós. Uns elásticos, cor-de-rosa, que tentavam domar aquele cabelo negro. Sem sucesso claro está. A Ana era indomável. A rainha do recreio, a campeã das correrias. Ninguém tinha os joelhos esfolados como ela. Como eu gostava da Ana… Não pude deixar de sentir um tremor no meu peito… Uma onda vermelha chamou os meus olhos. Era uma família de papoilas, que ondulavam ao sabor da brisa amena que soprava. A minha mãe estava ali. Recordo os passeios no campo e os ramos de papoilas que colhia para lhe dar. “São para ti Mãe”. Os seus olhos brilhavam, mesmo que na correria da minha colheita desenfreada muitas das papoilas chegassem às suas mãos “semi-despidas” e com graves problemas de “coluna”. Eram, tinha a certeza, os mais belos ramos de flores. Ao lado vi um tapete de Azedas, umas pequenas flores amarelas nas quais descobri os rostos dos meus colegas de escola. Recordei que as nossas aventuras e fantasias de índios e cowboys eram acompanhadas por essas flores selvagens às quais sorvíamos os pés, extraindo um suco adstringente, que, acreditávamos, nos dava super poderes comparáveis aos da poção mágica dos irredutíveis gauleses. Olhei em volta e vi tantas caras conhecidas e queridas naquelas flores. Como era possível eu nunca ter prestado atenção as flores. Vi amigos, familiares, namoradas, colegas, professoras… Um jardim de afectos. Ajeitei-me na cadeira, olhei para os gráficos projectados no ecrã e sorri. Amanhã trago um ramo de flores para o escritório.

João

2 comentários:

  1. Mto bom João. Tens, como eu já disse, um estilo criativo e inocente que nos faz remeter para o nosso lado mais humano. Agora: não deixe o teu chefe nem a tua mulher lerem o teu texto. E, principalmente, se comprar flores, prefira as da webflor:-)

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  2. Gostei muito! Imaginei-me logo numa reunião e a navegar a partir de uma palavra no caderno de apontamentos... Obrigada pelo bilhete também low-cost. :) Vanessa

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