sexta-feira, 18 de março de 2011

Escreví a palavra flor...

Escreví a palavra flor, com batom, no espelho da casa de banho dela, e saí de mansinho para a rua... O gato tentou escapulir junto mas, expedito, pu-lo de volta com um chuto sem impacto. Ai se o bicho mia...
Sentí nostalgia no momento em que a porta da rua se fechou atrás de mim... Tristeza por ter de enfrentar todas aquelas horas antes de poder vê-la outra vez.
Passei o dia com um confrangedor esgar de felicidade no rosto que fazia lembrar a expressão do vencedor de um prêmio muito cobiçado.
Um amigo observou que eu estava com ar de "homosexual satisfeito". Sou homem até de baixo de outro homem!... Respondí, tentado devolver a graça e desviando a atenção dele para coisas menos importantes.
Eu, para manter o estado da alma, não queria falar sobre a experiência daquela madrugada em que encontrei-a, seduzí-a, amei-a e deixei-a silenciosamente.
Talvez a atitude de gênero, tantas vezes aplicada, me estivesse a confundir: era amor à primeira vista ou apenas satisfação pelo triunfo da conquista?
Uma da tarde, quatro, seis, oito da noite... As horas passavam na velocidade inversa do meu batimento cardíaco...
A ansiedade já estava transformada em euforia infantil quando, às oito e vinte e três, decidí  ignorar os manuais de engate e ser eu o primeiro a ligar.
Falo com ela no gerúndio ou no infinitivo? Conjugo na 2ª pessoa ou vai no “vale-tudo-tropical”? Achará graça do meu sotaque ou lhe dará asco? Fusão, a moda é fusão...
Alô, ixxtô... Sou... O quê?... Batom?, que bat... Ah... Sim, são caros e... Desculp... Por quê flor?... Ora, porque.. Sei lá, deu-me para pieguices madrugadoras e... Ir para onde? Mas eu... só queria... Desligou na minha cara.
Me reconfortei numa filosofia de taberna: “o bom relacionamento é o que não dá certo”...
 
Marco

1 comentário:

  1. Ui, essa filosofia de taberna dói!... Recuso-me a acreditar nela, e vou passar a olhar para o espelho da casa de banho com outros olhos. ;-) Vanessa

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