nunca consegui escrever histórias. enrolo as palavras no cabelo e as personagens, de resto como toda a gente, aborrecem-me. acabo afogada no caos do meu quarto, no caos das relações que não tenho e no caos dos que não me batem à porta. o Tejo não me deixa fazer senão pensar e eu não sei se as minhas infundadas e delirantes expectativas são reais ou se se irão com as águas.
é difícil saber por onde começar, quase como se adivinhasse que não me vão preencher as sílabas das vozes, conversas que imagino minhas a saltarem do lado de lá do papel. conversas, formas, corpos de que não sei de cor a pele, se eu nem a mim me encontro se nem eu própria sei quem sou como em que medida é possível saber quem são esses outros que em mim vivem? por isso deixo correr livres loucas as palavras, como nunca correm as minhas mãos, as palavras livres loucas confusas sem pontuações desculpem-me sem pontuações através dos cadernos, folhas soltas em que me escondo, perdidos (eu e as palavras) nas esquinas de uma Lisboa que me devora no seu amor incessante violento controlador, a Lisboa dos doidos do homem que acordado adormece lúcido na Igreja dos Italianos atentando em nós, nos que passam, confuso (acredito eu que confuso) encharcado em recordações interrogações verdades maiores que ele próprio e maiores que nós, os que passam em passeios desprovidos de valor nas horas vagas ou na correria das que antes fossem.
e ainda assim fico sem saber, entre gavetas portas a fechar o telefone que não toca, das mulheres esquivas por que anseio, Annas Karenina da minha vida, e das outras insustentáveis levezas do meu ser: os romances descabidos, dois amantes que não se conhecem à luz pálida da manhã, as palavras enroladas no cabelo, sátiras de mim própria (eu que nem a mim me conheço), as fachadas dos edíficios, cancros do meu Tejo, eu que não me encontro a mim que não encontro as gentes que me enchem de tédio nem debaixo do meu parapeito nem em lado nenhum.
Regina
ps. não consigo comentar. sou um desastre com estas coisas.
Es profusa. Uma espécie de Patty Difusa.
ResponderEliminarCativante o seu texto. Gostei mto do "acordado adormece lúcido" e das repetições de atitudes (enrolar palavras no cabelo) que denotam um certo ruminar.
Lindo. Intenso, cheio de sentimento, ao teu estilo. Gostei muito. Um beijinho.
ResponderEliminarmesmo assim, escreveste a história da rapariga que não consegue escrever histórias. e parece que oiço a tua voz quando leio as tuas linhas. :)
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